segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Imprensa, Antissemitismo e Clarice Lispector

Trecho de Clarice,, biografia de Clarice Lispector escrita por Benjamin Moser, em que se narra a demissão da escritora pelo Jornal do Brasil, assim como de outros funcionários de origem judaica, incluindo Alberto Dines. O motivo era a pretensão do dono da publicação de cair nas graças do mais novo presidente "eleito" pela Ditadura: Ernesto Geisel. Interessante porque aponta as tensões identitárias na imprensa brasileira e também porque indica as relações de poder por trás de outros diários que não os criticados sempre, como a Folha e o Estado — e até mesmo põe O Globo como incômodo ao ditador da vez. Segue:

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(...) Na época da derrubada de Allende, o Brasil estava tenso pela expectativa das "eleições" que se aproximavam. Sob o regime, os presidentes eram escolhidos pelo Congresso, controlado pelos militares. O dono do Jornal do Brasil, Manuel Francisco do Nascimento Brito, opunha-se a Ernesto Geisel, general que estava entre os candidatos, e sua opinião era conhecida nas altas-rodas. Nos conchavos políticos que levaram à indicação de Geisel, Nascimento apostou no cavalo errado.
Geisel, do Rio Grande do Sul, era filho de um imigrante alemão, e o alemão tinha sido a língua de sua casa na infância. Geisel não era abertamente antissemita e não tinha integralista, mas havia alguns elementos na sua biografia que deixavam os judeus de cenho franzido, tais como seu alinhamento de juventude com o general Álcio Souto, ativo simpatizante nazista. Segundo registros, ele descreveu o professor Eugênio Gudin (que não era judeu) como "este patife do Gudin, que é um salafra, é um judeu sem-vergonha". Diferentemente do que ocorria com muitos elementos das Forças Armadas brasileiras, que reverenciavam a bravura marcial de Israel, não há nenhum indício de que ele tivesse disposição favorável aos judeus.
A Guerra de Yom Kipur, em outubro de 1973, influenciou o pensamento de Geisel, como fez com tantos outros. (...) A guerra e o novo governo ensejaram uma revolução na política externa brasileira; o país cujo embaixador presidira a votação das Nações Unidas pela criação do Estado de Israel agora lançava seu apoio diplomático às nações árabes.
O Jornal do Brasil, refletindo a orientação tradicional de política externa do Brasil, sempre fora pró-judaico e sionista. Nascimento Brito, seu rico e influente proprietário, era um admirador de Israel; chegara a mandar seu filho para um kibutz em sua primeira viagem para o exterior. Mas negócios eram negócios, e sua  indiscreta oposição a Geisel criou a necessidade de um gesto de aproximação ao novo grupo dirigente. Como Samuel Wainer, entre outros, tinha aprendido, o regime militar poderia tornar muito difícil a vida para um magnata da imprensa não cooperativo.
A solução que ele via pela frente era bastante clara: demitir os judeus. Que esse gesto fosse capaz de ter efeito sobre Geisel é sugerido pelo restante do comentário deste sobre o "patife" Eugênio Gudin: "O Globo abre suas páginas todos os dias para Gudin escrever seus disparates". O Globo era o principal concorrente do Jornal do Brasil no Rio, e um indício do desagrado de Geisel pelo "judeu sem-vergonha" em suas páginas talvez tenha chegado aos ouvidos de Nascimento Brito, sugerindo-lhe uma oportunidade.
Em dezembro Clarice ouviu um rumor de que seria dispensada pelo jornal no final do ano. Em pânico, telefonou para Alberto Dines e Álvaro Pacheco, que ficaram no apartamento dela a maior parte da noite, garantindo que não havia nada a temer, pois se tratava de um mal-entendido. Na manhã seguinte, Alberto Dines, ao acordar, leu a notícia de sua demissão na primeira página de seu próprio jornal.
A razão alegada foi "falta de disciplina", embora Dines tivesse dirigido o jornal durante anos e nunca tivesse ouvido queixa semelhante. Não foi tudo de uma vez; a "gente dele" foi dispensada uma a uma. "Eu tinha tido o cuidado de não chamar judeus demais, para não ser acusado de favoritismo. E os que contratei eram da mais alta qualidade. Ninguém poderia dizer que Clarice Lispector não merecia estar ali", disse Dines. "O jornal terminou Judenrein (limpo de judeus, no vocabulário do Holocausto. [N.T.]). Mas eles fizeram a coisa de modo cauteloso o bastante para não dar imediatamente na vista. Nunca disseram isso, mas o resultado era bastante claro. Tipicamente brasileiro." Nenhum dos góis que ele havia contratado foi despedido.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Editoriais de João Gabriel de Lima, da Bravo!

Publiquei no Digestivo Cultural uma coletânea de trechos dos editoriais de João Gabriel de Lima, que deixou neste janeiro a direção de redação de Bravo!. Neles, o jornalista discute a cobertura feita pela revista e aponta quais os princípios que o guiam: a clareza e a compreensibilidade como valores máximos de um texto; a imersão em um assunto ou pessoa; a ideia do repórter como autor, no sentido forte do termo; a abrangência crítica que deve possuir o jornalismo cultural.

Algumas citações ficaram de fora na edição final; esse conteúdo extra segue abaixo. Leia também a minha análise de "Os Exageros de Almodóvar", matéria de João Gabriel que troca o lead tradicional por um estilo de texto meio Twitter, meio gincana.

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Prêmios Culturais

Existem duas maneiras de encarar um prêmio cultural. Uma, duvidosa, é a esportiva. Como se na arte houvesse vencedores e derrotados, ou como se estatuetas do tipo Oscar, Urso de Ouro ou Jabuti equivalessem a uma Copa do Mundo. A outra, mais adequada, é levar em consideração o significado cultural de um prêmio. O que ele aponta em termos de tendências e o que a soma de seus indicados e vencedores tem a dizer sobre o espírito de uma época. (Novembro/2010)

Revolução na Música e Reality Check

Se a internet foi uma revolução em si, o que ela fez no mundo da música foi a revolução dentro da revolução. (...) Trata-se de uma mudança ao mesmo tempo econômica e cultural. A possibilidade de baixar música pela internet fez com que a indústria fonográfica entrasse em crise e deixou várias perguntas no ar. O CD vai acabar? Os compositores deixarão de pensar seus trabalhos em álbuns, preocupando-se em criar canções individualmente? De que eles viverão? O iPod transformará a audição de música numa experiência solitária? Numa época em que o acesso à obra de diferentes artistas é ilimitado, deixarão de existir os cantores e compositores de massa, aqueles que se tornam símbolos de uma geração?

Em momentos assim, surgem profetas de todos os lados, com as mais mirabolantes previsões. Neste cenário, cabe às revistas de cultura fazer aquilo que os ingleses chamam de reality check, expressão quee pode ser traduzida como "teste de realidade" ou "choque de realidade". Ou seja, confrontar as previsões surgidas de diversas fontes — economistas, consultores, estudiosos do fenômeno cultural — com os fatos, puros e simples em sua concretude. (Março/2009)

Inteligível e Instigante

O desafio de elaborar um bom texto jornalístico duplica quando ele é elaborado a partir de fontes cadêmicas. Como ensinam os grandes editores americanos, como o lendário William Shawn, da revista The New Yorker, toda grande obra jornalística tem que ser ao mesmo tempo profunda e clara, inteligível para o leigo e instigante para o especialista. (Setembro/2008)

Vida Cultural

A vida cultural só existe de fato quando as obras e seus autores começam a fazer parte das conversas das pessoas e, eventualmente, gerar polêmica. (Maio/2008)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Telégrafo

"O advento da internet trouxe consigo inumeráveis alegações de que vivemos uma revolução sem precedentes na comunicação, revolução tal que aniquilou nossa concepção da distância. No entanto, a revolução real veio com a chegada do telégrafo no século 19", diz Susan Schulten, no New York Times, no início de um artigo que analisa as consequências dessa invenção para a sociedade (governo, negócios) como um todo.

Destaco o trecho em que ela fala sobre o jornalismo:
Perhaps the most consequential adoption of the telegraph was in journalism. (...) By 1860 the Associated Press was distributing its news not just in New York but around the country, and this practice began to transform the very meaning of news. Local papers now had the capacity to report national events to their readers in a timely manner, so that “the news” gradually came to connote not just events, but events happening at almost that very moment. Prior to the telegraph, the distribution of news was regulated by the speed of the mail, but now news was potentially both instantaneous and simultaneous.

Completo aqui.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Entranhas do Futebol Brasileiro

Lúcio Ribeiro, no caderno Esporte, da Folha, escreveu como os jornalistas mantém seu foco apenas na Série A do Campeonato Brasileiro e acabam por ignorar grandes histórias nas divisões inferiores:
Histórias como a do repórter que foi expulso de campo pelo árbitro na segunda divisão do Tocantins ou até estrangeiras, como a do pequeno Swansea (time do País de Gales que disputa neste ano a milionária Premier League e que tem no elenco três jogadores que subiram junto com o time da quarta para a terceira divisão, depois para a segunda, agora para a principal), mereceriam rivalizar com notícias como "Dagoberto assinou ou não com o Inter" ou "As fotos do Valdivia".
Não?
O texto também está disponível aqui.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

#tuiteumfilme na Bravo!

João Gabriel de Lima, diretor de redação de Bravo!, escreveu um artigo sobre Pedro Almodóvar, tratando de seu filme mais recente — A Pele que Habito — e das características mais marcantes da obra do diretor. Esqueça o lead tradicional: o jornalista começa o texto com um jogo de adivinha inspirado nas frases curtas do Twitter.
Se você é fã do diretor espanhol Pedro Almodóvar, tente adivinhar quais são os filmes abaixo – reduzidos aos 140 caracteres da linguagem nervosa do Twitter:
(a) Enfermeiro estupra bailarina em coma e, antes de se matar, procura melhor amigo – escritor cuja mulher também havia entrado em coma.
(b) Mulher abandonada por amante casado perde o eixo, coloca fogo na cama e faz polícia e amigos dormirem com sopa soporífera.
(c) Mãe vê filho morrer atropelado enquanto ele pede autógrafo para diva do teatro – e, durante o luto, decide se tornar secretária da atriz.
(d) Policial fica paraplégico enquanto salva mulher ameaçada por traficante de drogas. Eles se casam, mas não são felizes para sempre.
(e) Cirurgião sequestra homem e o transforma em objeto de experiências médicas – dermatológicas, psiquiátricas e ginecológicas.
As descrições lembram a hashtag #tuiteumfilme, que se espalhou pelo Twitter há algum tempo atrás. Há alguns deles aqui e aqui. A partir das respostas, João Gabriel toca o que seria o primeiro parágrafo em um texto mais comum — dá algum contexto e apresenta os desenvolvimentos que fará. Depois, volta ao jogo:
Dizer que Almodóvar é um cineasta autoral pode ser lugar-comum. Bem mais interessante é tentar descobrir de quem ele é herdeiro na liga dos autores de filmes considerados “de arte”. Novamente, vale o teste do Twitter. Tente adivinhar quais os autores dos clássicos abaixo – e qual deles é o verdadeiro inspirador de Almodóvar:
(a) Jornalista em crise existencial perambula pelas ruas de Roma e perde as ilusões depois que seu mentor comete um crime.
(b) Cineasta em crise existencial separa-se da mulher, tenta se matar para recuperar a amada e fracassa na morte e no amor.
(c) Atriz em crise existencial fica muda. É internada numa clínica e acaba se envolvendo emocionalmente com a enfermeira.
(d) Adolescente em crise briga na escola, entra em conflito com a família, foge de casa e se torna flâneur em Paris.
(e) Fotógrafo fica obcecado por um crime que presenciou. Cura-se da obsessão assistindo a um jogo de tênis sem bolinha.
O recurso se torna ainda mais significativo no trecho seguinte: a forma lúdica e inspirada no microblog não se esgota em um atrativo estético, mas é usada para expor a especificidade de Almodóvar como autor, que é a tese do autor da matéria:
O contraste entre os resumos tuitados é significativo. De um lado, como já se disse, sentenças no gênero “espreme-sai-sangue”. De outro, jornadas mentais de personagens atormentados. Filmes como os listados acima ajudaram a estabelecer o clichê do cinema autoral europeu como algo centrado no percurso interior do protagonista, que ao longo da trama vive situações que aparentemente não se conectam – mas que, no conjunto, ajudam o personagem a aprender algo sobre si próprio. Como todo clichê, é reducionista e dá conta apenas de parte do fenômeno. Mas, como todo clichê, tem um fundo de verdade. Estabelece o que se tornou a tradição do cinema europeu. E essa tradição nada tem a ver com Almodóvar.
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Tentei achar os artigos da New Yorker que João Gabriel de Lima cita, mas não consegui. Encontrei alguns outros dos mesmos autores. 

O primeiro citado, David Denby ("chegou a dizer que as famosas cores que aparecem em seus filmes lembram as usadas em (...) liquidações"), escreveu também sobre A Pele que Habito. Sua opinião é muito diferente da exposta na Bravo!. Na revista brasileira, diz-se que o filme tem um "exagero de criatividade e talento" que seria comum no diretor. Denby afirma: "It is the least enjoyable of Almodóvar’s films, a movie that is serious without being intelligent"; e "the most spontaneous of all movie artists has succumbed to “art,” and the results are a bummer".

O segundo, Richard Brody ("escreveu [que] no teatro o ator traz o personagem para que o autor o lapide, enquanto no cinema o diretor arranca o personagem pela goela do ator"), tratou do mesmo tema em pelo menos dois posts: Pedro Almodóvar vs. Antonio Banderas e Sean Penn vs. Terrence Malick.

domingo, 9 de outubro de 2011

Malafaia Vitorioso

Daniela Pinheiro escreveu, para a piauí, um perfil do pastor Silas Malafaia. Ele é líder da Assembleia de Deus — Vitória em Cristo, seus sermões têm enorme influência, televisados ou no templo e sua arrecadação não fica atrás, vinda através de ofertas e doações. Além disso, é conhecido por seus conflitos com movimentos sociais (gay, feminista, entre outros). A reportagem aborda essas polêmicas e traz um panorama do mundo evangélico — ou, ao menos, de uma parte significativa dele — os ideais e sentimentos que o constituem, e, mais relevante, o poder político, cultural e financeiro que existe aí e do qual Malafaia é a expressão. 

Quero destacar um trecho em que a repórter se coloca na matéria. O jornalismo pretende construir uma visão objetiva dos acontecimentos; em um nível ideal, agrega o maior número de fatos relevantes, garante a precisão e a veracidade desses fatos com a variedade de fontes, expõe esses dados de forma hierárquica e de modo a excluir as opiniões pessoais e o próprio jornalista no texto corrente de narrativa. Nesse caso em particular, não foi possível tratar as coisas desse jeito. Ser objetivo, aí, significava outra coisa:
(...) Elizete queria saber se eu acreditava em Deus, se era cristã, se já havia lido a Bíblia, se já havia ido a algum culto evangélico, se havia sido batizada na Igreja Católica. Respondi não a todas as perguntas. Falou-se sobre Deus e o Diabo. Ela afirmou que as forças do mal se empenham a todo instante em impedir que o mundo e o ser humano se aperfeiçoem. “Eu não tenho problema com quem não é cristão, mas você pelo menos acredita no bem e no mal?” “Não no sentido metafísico”, respondi-lhe. Não houve mais perguntas.
Elizete é a esposa de Malafaia. A repórter está em sua casa, juntando fatos relevantes, tendo certeza de que os outros que havia conseguido anteriormente eram precisos e verdadeiros. No entanto, a pergunta que Elizete lhe faz se torna de repente um dado importante: pela expressão da personalidade da mulher e de suas crenças (o que acaba sendo um outro esboço de toda a comunidade); e pela manifestação da relação que se impôs entre entrevistador e entrevistados — indica as reservas que esses últimos podem ter quanto a ela; indica as reservas que o primeiro tem quanto a eles.

Isto é, o quanto o ateísmo ou agnosticismo de Pinheiro é determinante na matéria? E o quanto influiu nos seus resultados do texto? Colocar-se no texto, nesse caso, significou informar ao leitor qual a posição da jornalista no jogo político e cultural que se desenha em sua reportagem. 

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Por outro lado, é uma situação de entrevista particularmente difícil: a jornalista responde às perguntas com sinceridade, mas é um ato perigoso. Pode restringir a quantidade e profundidade das respostas que teria ou mesmo afastar definitivamente a entrevistada de si. Como agir em um caso complicado como esse?

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

As Coisas que Deixei de Ouvir

Em Apresentação ou uma Proposta do Ouvir, prefácio do livro Stagium — As Paixões da Dança, Cássia Navas expõe uma situação de entrevista com um detalhe interessante: uma resposta do entrevistado muda os rumos da conversa, ilumina espaços de exploração além do roteiro inicial.
- Que você sente quando entra no estúdio, no primeiro dia da criação de uma nova coreografia?
- Sinto um mal-estar tremendo, uma dor no estômago, como se tivesse comido alguma coisa que não me fez bem.
Esse diálogo faz parte de uma entrevista de março de 1998, quando, buscando pistas para a elaboração de bases de dados inédidas sobre coreógrafos, dentro da Rede Stagium, conversava com Décio Otero. (...)
De um golpe só, a conversa mudou de cor e sentido.
Ouvir essa frase fez-me pensar num estado “em arte e em pesquisa” que é aquele que faz as pessoas estarem doentes de uma folia, como diria Chico Buarque na letra da canção O que Será? (À Flor da Pele).
Esquecida da entrevista, parei para ouvir o diferente e despropositado da declaração e, desconfiada, pensei na quantidade de coisas que não estaria deixando de ouvir dos artistas cujas obras investigara.
Informações preciosas, à espera que se lhes fosse imprimida uma energia qualquer de desvendamento, um escamar de pele, a abertura de uma cortina de tule.
Que mais não estaria escutando, que mais não se impusera, em sua força de mundo, a meus radares de pesquisadora-leitora de objetos de estudo?
 Lembra algo sobre o qual já escrevemos, a capacidade de se maravilhar.